Quando meu coração dói por dores que não sei lidar, algo
me diz que é preciso crescer. Mas, o medo me faz voltar aos sonhos de ser
criança. Porque por mais que uma criança sofra, um sorvete é capaz de alegrá-la
e as cores de um algodão-doce trazem de volta o brilho nos olhos...
A criança chora, mas em seguida é capaz de sorrir com
a mesma intensidade das lágrimas. O bonito da infância é saber reagir diante das
contradições.
Quando crianças, brincamos de ser adultos. E a gente
cresce pra querer voltar a ser criança. Há nisso um sentido que ultrapassa o
mero querer, penso. Eis o tempo e suas inadequações. O tempo que, para alguns,
é um santo remédio. Se assim fosse, chamaria antibiótico. Mas, é o tempo, o
senhor das transformações, que nos torna adultos.
(.....)
Lembro-me de quando abraçava minhas bonecas e o
simples gesto amenizava os vazios que eu sentia sem entender.
A saudade era distraída com um brinquedo novo. O medo
se traduzia num fantasma que poderia estar escondido no escuro. As dores e
feridas eram curadas com afago e um remedinho.
Eu vivia com o joelho ralado e talvez fosse feliz. Não
tinha muita consciência das coisas. Não sei se tenho hoje, mas tento não ser
alienada.
Hoje, não machuco mais o joelho, mas tenho um coração
rasgado, fragmentado em partes que se multiplicam em dores.
Não tenho mais bonecas, não me alegro com um sorvete.
Outras coisas, ainda que poucas, significam a minha existência.
Eu cresci, mas não o suficiente. Tenho medo de viver e
não conseguir viver. Apenas existir, entende?
Quando eu era pequena, eu tinha mais coragem,
justamente por não saber o que isso significa.
Olho para a menininha ainda não esquecida, que vive
em meu dentro. Tão diferente do que me
tornei hoje. (...) Ela me faz pensar que, para crescer, talvez seja necessário
voltar a ser criança. Talvez. Tudo o que
um dia soube, ficou no tempo da minha infância.
Não há mais castelos e não sou a princesa que salva os
desprotegidos.
Não consigo me salvar.
Não tenho abrigo.
Não sei brincar.
Não fantasio.
Não e nada.





