sábado, 5 de novembro de 2011

O não – lugar


Casulos que não geram borboletas, o que tanto protegem?
O medo da dor de não ser amor; um não-amor que ocupa todos os lugares vazios; um amor preso nas lembranças que nunca foram, mas foram embora.
O medo de voar esconde quedas e feridas de antigos voos.
As algemas me fazem gemer no escuro, por aquilo que um dia desejei, mas despejei no tempo, no espaço de um tempo, hoje, sem lugar.
Espremo a esperança e a ilusão que me falseia a realidade. Sobra espaço, mas não há lugar para trazer de volta, o que por ora se perdeu em longas horas de espera.
Espero, desespero e no mesmo ato, desato o que é falho. Mentira, que finjo ser verdade. Mando embora de mim no exato instante em que imploro pra que não demore a voltar.
Não mais arrisco e assumo o risco de perder as chances de um vir-a-ser, que se fosse, já haveria sido.
E o que me resta é o não – lugar de uma alma descabida, que jogou fora tudo o que fora aprisionado.
Num único grito, engulo a chave. Um dia a vomito.
Um dia aprendo a rir da dor que me desfaz e a faço sofrer no meu lugar, no não-lugar que lhe compete.
Como uma borboleta que vive sem asas, oriunda de um casulo vazio, sem lugar.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Mais ou menos

Quem menos sente, mais sorri.
Quem menos chora, mais se oprime.
Quem menos busca, mais se perde.
Quem menos ousa, mais se agride.
Quem menos é, muito finge.
Quem muito era, já se foi.
Quem muito vai, já era.
Quem muito menos, menos mais.
Mais amor, mais angústias.
Mais angústias, mais abismos.
Mais abismos, mais amor.
(...)
Quem muito existe, pouco vive.
Quem muito entende, pouco sabe.
Quem muito encontra, pouco escolhe.
Quem menos força, mais esforço.
Menos com menos é mais, segundo a matemática dos livros.
Ah, se fosse assim tão simples!  
Juntar os cacos e transformá-los em cactos.
Unir vazios, tornando-os presenças.
Desatar os nós e enlaçarmos nós.
Na multiplicação dos pães, um desejo secreto.
Na divisão dos peixes, o milagre.
Crede e verás! - diz o devoto que ora há horas,
Uma prece sem pressa, por um deus que adeus.  
 

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Desejos nos ex-passos...

MUITO                                                SE                                           


                                                                                                              DIZ
                                            
                                
                                             NO                              


                                                                                POUCO            



        QUE                                                   SE                                        


                                                                                                                              ESCREVE.
Pois é no silêncio dos espaços que residem os mais verdadeiros desejos. 


 

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

O tempo da pausa de um longo des-escrever






hiatos agudos
linhas sem letras
sentimentos lacrados
consoantes os bloqueios
vogais que vagam perdidas
num mundo que gira e não fala
rascunhos de um papel em branco
sobre o amor amado, amassado
nos desalinhos, um desabafo
e um mudo grito não-dito
fica de lado no tempo
afagos que apagam
atento ao relento
o quase que era
se desespera
reverbera
e já era. 

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Sobre o presente, um conto de presente

"Foi-se o caso em que era uma vez numa terra distante a moça. A moça era. Era tanto que excedia em ser, e se atrapalhava toda em estar."

Por Talita Prates.
Para mim.