Eis o prólogo de uma história cujo fim começa no começo: era uma vez uma
criança que sonhava ser bailarina pelo resto da vida. Um desejo sincero, um não
acontecido. O tempo fez com que “dançar pelo resto da vida” refletisse restos
de dias que não dançam mais. Fim. Fim! Alguns fins não acabam. Algo estranho
nunca deixou de se movimentar dentro da ex-purgada bailarina. Nela, abismos livres dançam
nos palcos internos, agridem, exageram nos movimentos e pisam com a firmeza de quem
sabe executar o passo. Dançam sem música, em silêncio, aos gritos. Dançam
dançam dançam dançam dançam e dançam. E ela os odeia. Odeia os bailarinos da
morte que a deixam viver, que cravam no peito cruzes que esgotam a força do corpo. No
breu das sapatilhas que impede o escorrego, lágrimas de quase sangue escorrem
por dentro de um dentro tão fundo, que cria o vazio da cena. Não há espetáculo,
não há platéia, não há nada além de palmas que ecoam na coxia da solidão. No ato
de desatar o corpo da alma, tristeza e angústia dançam o pas de deux, deixando
no chão as marcas de uma sombra que se move sozinha. Das lembranças do passado que dialoga com o presente, o medo do pas
de bourrée e o temor pelos mantras de uma reza burra. Não há salvação para a
alma da bailarina petrificada no tempo. Nos acordes dissonantes de uma música
sem som, a ausência de palavras livres que poetizam o corpo. No envelope
lacrado, restos que registram um antigo convite: as dores da bailarina que a
vida tirou pra dançar.
Das águas que sabem de março
Há 4 semanas