Eis o prólogo de uma história cujo fim começa no começo: era uma vez uma
criança que sonhava ser bailarina pelo resto da vida. Um desejo sincero, um não
acontecido. O tempo fez com que “dançar pelo resto da vida” refletisse restos
de dias que não dançam mais. Fim. Fim! Alguns fins não acabam. Algo estranho
nunca deixou de se movimentar dentro da ex-purgada bailarina. Nela, abismos livres dançam
nos palcos internos, agridem, exageram nos movimentos e pisam com a firmeza de quem
sabe executar o passo. Dançam sem música, em silêncio, aos gritos. Dançam
dançam dançam dançam dançam e dançam. E ela os odeia. Odeia os bailarinos da
morte que a deixam viver, que cravam no peito cruzes que esgotam a força do corpo. No
breu das sapatilhas que impede o escorrego, lágrimas de quase sangue escorrem
por dentro de um dentro tão fundo, que cria o vazio da cena. Não há espetáculo,
não há platéia, não há nada além de palmas que ecoam na coxia da solidão. No ato
de desatar o corpo da alma, tristeza e angústia dançam o pas de deux, deixando
no chão as marcas de uma sombra que se move sozinha. Das lembranças do passado que dialoga com o presente, o medo do pas
de bourrée e o temor pelos mantras de uma reza burra. Não há salvação para a
alma da bailarina petrificada no tempo. Nos acordes dissonantes de uma música
sem som, a ausência de palavras livres que poetizam o corpo. No envelope
lacrado, restos que registram um antigo convite: as dores da bailarina que a
vida tirou pra dançar.
Das águas que sabem de março
Há 4 semanas
7 comentários:
Mesmo na solidão, a bailarina não está sozinha. E é da dor de um sonho não realizado, de um eterno que tem fim sem acabar, que o artista cria. É no vazio que a bailarina pode dançar, mesmo que não seja uma dança limpa ou articulada. É nas palavras, que a alma dança, e a sua, amiga, dança linda demais.
Um beijo.
Há músicas que tocam no silêncio, que ecoam dentro. Desafinadas para a próxima dança.
Pés cansados desatam infinitos para alcançar os próximos passos.
A vida sempre nos tira pra dançar...
Bjos
Tão bonito observar as bailarinas. Fico imaginando quanta dor elas suportam apesar de aparentarem ser tão leves. Eu, desastrada que sou, nunca poderia. E, nem esse coração que nunca soube ser silencioso.
Dai, leio você e mesmo quando as palavras parecem feridas abertas, existe esse deslizar suave. Talvez, exista mais de um tipo de bailarina. Obrigada pelos passos, pela música e pelas lágrimas, que de vez em quando bailam, quando por aqui passo.
Bjo Nanda
Uma vez levada a dançar, como recusar a música, os passos, o movimento dentro das veias?
Que a coreografia seja sempre bela (e ainda que não seja, convença a plateia de que foi).
Beijo.
Pois se o corpo não dança, dançam as palavras.
Se a bailarina se petrifica, recusando as piruetas e glissats, a alma faz fouettes como ninguém!
Se a plateia não está, ela a inventa.
Se o breu das sapatilhas impedem o seu deslize, é apenas para que ela não se esborrache no chão.
Por vezes qualquer toque machuca, mas só quem já dançou (ou amou) sabe como algumas dores podem ser boas. Sem masoquismos. Aquilo que é bom de verdade, está inscrito na dor.
Vi uma das coreografias mais lindas da minha vida aqui, Nanda.
A vida dança com você, ainda que muitas vezes você acredite estar parada.
Um beijo cheio de carinho!
Entendo os teus olhos, bailarina.
Eu sei que a sapatilha machuca os pés, mas acredito nos teus voos. Noto qualquer coisa de porcelana em meio ao teu jeito de boneca, nessa tua fragilidade escancarada. Força você tem.
Teus olhos d’água choram as notas que marcam os teus passos. Você canta bonito, bailarina, mesmo quando as palavras saem num sussurro. Música você tem.
Rodopia no teu céu. Satisfaça teus sonhos. Sonhos você tem, não tem?
....................
Quanto carinho sinto por você, bailarina. Obrigada por me tomar pela mão e me fazer rodopiar numa improvisada e linda, linda!, dança da minha/sua história.
Eu fui uma bailarina por obrigação, mas ainda vejo beleza no gesto de equilibrar-se em sapatilhas. Fiquei com as palavras, no entanto.
Abraços.
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