No aeroporto, porto das partidas. Pessoas sorriam e gesticulavam
apressadas, rumo aos destinos. Ela, em silêncio, levava consigo um coração
partido e uma mensagem no celular: “morreu!”. Uma lágrima discreta escorreu
pelo rosto. Não conseguia chorar, embora a realidade houvesse desmoronado
diante de si. Talvez tivesse desaprendido a falar pelos olhos; talvez o fim
dito ao amor fosse o torpor de todos os sentidos. Talvez o fim da vida não
fosse o fim do amor, mas ela nunca soube amar além da existência. Perdera o
sentido quando, subitamente, sentiu seu corpo desfalecer. Não deu tempo de se
apoiar na cadeira mais próxima e caiu no chão. Antes, pensou que pudesse estar
morrendo e, por um instante, sua alma se encheu de alegria. O escuro diante dos
olhos durou poucos segundos; um fato irrelevante para quem tinha a vida
guardada em abismos. Agradeceu aos desconhecidos que lhe ajudaram. Quis pedir
socorro enquanto dizia que estava tudo bem. Um senhor se ofereceu para acompanhá-la
até o embarque, desconfiado do que acabara de ouvir. Sim, ela não era digna de
credibilidade. A morte estava estampada em seu rosto, deflagrada pelo interior
do seu corpo. Lembrou-se das vezes em que pediu para morrer por não suportar o
amor que sentia. Fantasiava cenas shakespearianas de um amor único para duas
mortes. Era egoísta e, se pudesse, transformaria o outro na continuidade de sua
alma. Aprisionou-o até o limite de sua (in)segurança. Em vão. A vida esvaiu-se
como quem pede para ir embora. Pelos vãos e labirintos de sua alma, uma rua sem
saída. Quis recuar, talvez outro caminho levasse à ressurreição do amor.
Impossível. A morte não tem saída. Chamaram pelo seu voo. O aviso sonoro
atropelou o pensamento. Hora de ir ao encontro de quem lhe trouxera a vida. Ela,
que nunca soubera ser a outra face do amor, buscava meios de expurgar a culpa
por amar de um jeito tão estranho. Sentiu medo. Pela primeira vez sentiu medo
da morte. Logo a morte, tão desejada nos tempos em que a vida lhe parecia
eterna. Reencontrou o amor que tanto lhe matava, (...) sem vida. Abraçou a
morte pedindo o fim de sua existência. Não teve coragem de se despedir daquele
corpo sem alma. No adeus não dito, um grito de inferno e dor atravessou-lhe a
garganta, rasgando com os cortes da morte, os escritos da palavra a m o r.
Das águas que sabem de março
Há 4 semanas
11 comentários:
A gente sempre renasce para amar novamente. Às vezes demora um pouco, mais do que uma gestação normal. Mas acontece, sempre.
beijos
(vc sempre me deixa sem palavras com seus textos)
Que bom revê-la por aqui!
Esse seu texto doeu em mim. Senti o peito rasgar corte a corte, dor a dor...
Soa egoísta, mas acho que uma das piores partidas é quando se parte de si mesmo.
E que a morte seja um motivo a mais para o amor renascer.
Um beijo!
Seus textos me rasgam, Nanda. Me rouba as palavras, os sentidos e os sentires. Emudeço.
O pior de um coração partido é o que fazer com tantas partes espalhadas em nós. Se misturam, condessam,não sei dizer ao certo...
Amor e morte,tão próximos que chega a dar medo.
Que bom que ressuscitaste o blog.
Bem vinda!
Nanda
Quando você fala/escreve esmigalha meu coração. Sinto dor em todas as dúvidas e nas certezas e depois do que parece ser um último suspiro ou gemido: sorriso.
Estar vivo é tão perigoso, você faz eu lembrar. E também que existe tanta beleza no mundo, nas pessoas.
Nos seus olhos vejo aquelas flores que desavisadas nascem na beirada dos abismos.
É impossível te ler e permanecer impassível, Nanda. Tanta dor, tanta vida, tanta morte, amor e verdade em cada uma das suas palavras. E o bom é que palavras assim tão vivas, por mais que cortem, também cicatrizam.
Quem te ler e não sente um aperto no peito sequer, com certeza não tem coração, nunca pensou em desistir, ou amor enlouquecidamente. Seus textos, desse como tequila, rasga a garganta por dentro, mas depois, sempre queremos mais um shot.
Adorei, beijos, leitora já fiel.
Uauuu...
Que texto hein amada!
Eu que tenho estudado sobre a morte (possivel tema de TCC)... fiquei sem palavras...
Parabéns!
Amo o jeito que escreve!
Saudades de vc...
Você se depara com o amor perdido e deseja uma morte do próprio interior. Eu já passei por isso, já fui coração de pedra, mas descobri que feriadas saram, apesar de não serem esquecidas. A gente se machuca, mas também se renova. Dei chance ao meu coração e hoje sou guiada pelo Grande Amor. Vale à pena não falecer.
Abraços.
Mais forte que isso só um porre bem tomado.
Uma das coisas mais sinceras, pontuais, empolgantes, estimulantes e violentamente cativantes que li nos últimos tempos.
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